sábado, 24 de março de 2012

Capítulo 5

         Laura passou a viagem a dormir, e quando acordou era como se ainda estivesse a sonhar.
Estava em Cape Road. Depois de tantos anos, estava em Cape Road de novo e nada parecia ter mudado. O cheiro a pinheiros e a eucaliptos era o mesmo, as pequenas e alinhadas casas eram as mesmas, a mercearia em frente de sua casa ainda lá continuava, enfim, era como se nunca se tivesse mudado. Quando olhou para a casa onde nascera e vivera parte da sua juventude quase que chorou.
Pegou nas suas malas e correu para dentro. Quando entrou, tudo estava como tinham deixado na tarde em que a família teve de se mudar para Seattle.
 - Parece que já temos trabalho para hoje e amanhã.
         - Para ti não, Laura. Vieste para descansar e relaxar de tanto stress. Não queremos que te preocupes com as limpezas, apenas que descontraías e aproveites ao máximo estes dias. – Sofia e Nicholas estavam dispostos a fazer tudo para que a sua filha não se tivesse de preocupar com nada.
 – Porque não vais desfazer as tuas malas?
         Laura queria contrariar os pais e dizer que estava bem e que as limpezas não eram problema para ela, mas quando olhou para os seus rostos percebeu que não valeria a pena.
Subiu até ao seu antigo quarto.
Quando abriu a porta ficou ali parada por alguns momentos a recordar outra vida. Outra vida onde ela não tinha preocupações ou responsabilidades. Era tudo tão mais simples naquela altura, era capaz de tudo, bastava querer. A tinta rosa estava a sair das paredes, mas tudo o resto permanecia parado no tempo. A cama continuava encostada à parede do canto, a secretária ainda tinha alguns textos que Laura se esquecera de levar de quando era adolescente e descobrira a paixão pela escrita, o desgastado baú que Laura tanto estimava ainda se encontrava atravessado no meio do quarto como se nunca tivesse conquistado um lugar só seu.
Chegou-se mais perto da enorme e velha janela e tocou-a. Naquele instante, imagens e partes da sua vida passaram-lhe na cabeça como se fossem um filme antigo. Nesse filme aparecia ela, mais feliz que nunca, mas não estava sozinha, Liam aparecia para completar a sua felicidade. Relembrou as vezes em que ele, já tarde da noite, batia à sua janela e com a maior destreza subia até ao seu quarto e eles se beijavam. Beijavam-se durante longos minutos como se nada mais existisse para além deles. Os seus lábios tocavam-se com fome um do outro, saboreando cada toque, cada sensação diferente. O mundo parava, o tempo congelava quando estavam nos braços um do outro. Conversavam durante horas e riam baixinho para que ninguém ouvisse. Quando ela estava prestes a adormecer ele dava-lhe um último beijo e saía. Eram como um só, completavam-se um ao outro.
         - Estas bem? – Edward batia agora à porta meio a medo para não assustar a irmã.
         - Porque não haveria de estar? Claro que sim. – Laura ofereceu-lhe um ténue sorriso.
         - Estamos a precisar de alguns detergentes e equipamentos de limpeza, pensei que poderias querer ir buscá-los?
Aquele era um pedido perigoso. Edward estava a dar a Laura um motivo para passear pela cidade, para ver como tudo estava, como todos estavam, como Liam estava, e ela percebeu isso logo que o irmão acabou de falar.
         - Claro. Fico feliz por poder ajudar um pouco nas limpezas. – aura deu um beijo na cara ao irmão e saiu. – Adoro-te Edward.
 - O que há para não gostar?  

***

         Existia uma mercearia mesmo em frente da sua casa, mas não quis ir a essa. Decidiu que, como tinha bastante tempo, podia ir ver as redondezas e conhecer mercearias novas.
Qual o seu espanto quando descobre que Cape Road já tem um Supermercado, mas depois do espanto inicial veio a irritação quando se apercebeu que o terreno onde agora o supermercado se erguia não era nada mais nada menos que o mesmo onde antes se encontrava um antigo parque infantil onde passara maior parte da sua infância e juventude. Ainda se lembrava das vezes que ela e os seus irmãos inventavam brincadeiras naquele mesmo parque, ou das vezes em que ela e Nora expiavam o irmão quando ele namorava com alguma rapariga, ou até mesmo das vezes em que elas próprias iam para lá namorar. Eram tempos que Laura recordava com um lindo sorriso nos lábios, tempos em que tudo era mais simples.
         Decidiu que não iria entrar no supermercado em honra daquele parque que tantas alegrias lhe trouxera, e que alegrias! Não teve que andar muito até encontrar outra mercearia. Ela lembrava-se dela, estava ali desde que se lembrava de ser gente. Entrou e não podia acreditar quem ali estava. Quando Laura saiu de Cape Road, perdeu o contacto com maior parte dos seus amigos, o que era natural nas suas circunstâncias. Por isso quando deu de caras com a sua melhor amiga dos tempos que ali passara, quase que chorava de alegria.
         - Ângela?
Quando Ângela se virou ao ouvir aquela voz tão familiar, ficou quase tão surpresa como Laura. Estava diferente, mas com os mesmos traços da sua juventude. Estava mais alta, mais morena, o seu cabelo estava cortado pelos ombros, deixara de ser uma rapariga desengonçada e passara a ser uma mulher.
         - Laura? Oh meu Deus! Há quantos anos?! Nem acredito que estás mesmo aqui à minha frente. Porque não me disses-te que vinhas?
         Deram um abraço longo e apertado. Os anos que passaram por elas não diminuíram nem um pouco a sua amizade, pelo menos era o que Laura pensava.
         Ela também reparou na aliança no seu dedo, Ângela casara-se. Mas como era possível? Ela era a pessoa que menos apoiava o casamento ou os namoros que ela alguma vez conhecera.
         - Sim é verdade, eu casei-me. – Ângela reparava sempre em tudo, Laura costumava pensar que ela daria uma boa psicóloga, sabia sempre o que ela estava a pensar. – E tive filhos, um casal para ser mais específica.
         Agora estava sem fala.
- A sério? Isso é maravilhoso! Quem é o felizardo que teve o privilégio de casar contigo?
Ângela empalideceu naquele momento, como se alguém lhe tivesse dado um murro no estômago. Olhou para o relógio e muito atrapalhada disse que tinha de ir buscar os filhos à escola e que já estava atrasada. Laura ainda tentou combinar encontrarem-se para tomarem um café e porem a conversa em dia, mas ela apenas conseguiu o número da amiga.
Ficou a vê-la abandonar a loja quase como se estivesse a correr de algo. Laura sorriu, aquilo era típico da sua amiga, mal sabia ela o que viria a descobrir.

Marina pinho 

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